Introdução
Após decidir trocar seu
automóvel, uma família que conheço determinou finalmente que a melhor decisão
seria comprar uma minivan nova. Embora fosse cara, eles planejaram cuidar muito
bem do veículo e fazê-lo durar por muitos anos. Enquanto ele ainda era virtualmente
novo, eles fizeram uma viagem. A correia que movimenta a direção hidráulica e o
alternador para a bomba d’água, quebrou, e o carro superaqueceu. Eles
imaginavam quanto o superaquecimento causou de dano, e eu não fui capaz de dar
a eles muito encorajamento. O vendedor garantiu para eles que uma nova correia
concertaria o carro inteiramente. No caminho de volta de um piquenique para
casa, eles foram pegos numa tempestade repentina e atingidos com granizo do
tamanho de uma bola de golfe durante um tempo suficiente para dar ao carro
inteiro uma aparência ondeada. Logo depois, enquanto dirigindo no centro da
cidade, alguém bateu na traseira da minivan danificando-a ainda mais. Meu amigo
me disse que chegaram ao ponto de até pararem de lavar o carro.
O carro novo do meu amigo
envelheceu rapidamente em pouco tempo. As coisas mudam tão rapidamente. Muito
frequentemente, mudança é uma realidade desagradável da vida que evitaríamos se
pudéssemos. Recentemente encontrei uma das nossas primeiras diretorias da igreja.
Puxa, ter alguns dos nossos amigos mudados!Alguns não têm mais o que eles
costumavam ter, e alguns de nós têm uma quantidade maior de algumas coisas do
que tínhamos antes. Uma olhada no mapa do mundo de 20 anos atrás revela a
existência de nações que não eram nem concebidas 20 anos atrás. As mudanças
recentes na antiga URSS vieram rápida e inesperadamente.
A tecnologia viu talvez as mais
dramáticas mudanças nos tempos recentes. Computadores que uma vez sonhei de
possuir agora vejo em bazares e escolho ir embora dificilmente com uma pontada
de dor de tentação, mesmo embora o preço seja abaixo de dez dólares. O
computador no qual estou escrevendo esta mensagem é 50 vezes mais rápido do que
o primeiro computador de mesa IBM que usei, o qual custa o dobro. As coisas
mudam tão depressa que não podemos confiar num jornal diário para notícias de
última hora; devemos ter programas de notícias durante o dia todo. Um
fazendeiro que encontrei recentemente tem um terminal de computador na sua mesa
de cozinha funcionando constantemente assim ele pode se manter atualizado.
Algumas mudanças são bem vindas;
outras não. Um grande conforto para os Cristãos que vivem nestes tempos
turbulentos e problemáticos é a confiança que temos de que Deus não muda.
Teólogos referem a este atributo de Deus como a “imutabilidade de Deus”. Deus
não muda. Esta verdade é registrada inúmeras vezes nas Escrituras e mesmo nos
hinos que cantamos na igreja. Reflitamos neste grande atributo, a imutabilidade
de Deus, antes de considerarmos as aplicações desta verdade nas nossas vidas.
29 - E
também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não
é um homem para que se arrependa. (I Samuel 15:29).
Saul tornou-se rei de Israel.
Como tal, ele teve de liderar os Israelitas na batalha contra os Amalequitas.
Ele foi instruído por Deus para destruir totalmente o rei e cada criatura viva,
homem, mulher, criança, e mesmo todo o gado (I Samuel 15:2-3). Saul obedeceu às instruções
de Deus somente parcialmente, permitindo ao rei viver e mantendo o melhor do
gado (versículos 7-9). Saul simplesmente não levou a sério a Palavra de Deus.
Como resultado, Deus tirou seu reinado (versículos 22-26). Saul então expressou
um pedido desesperado para Samuel, na esperança que Deus restauraria seu
reinado; em lugar disto, Samuel expressou as palavras do versículo 29. Samuel
informou a Saul que Deus, a Glória de Israel, não era um homem. Porém como um
Deus imutável, Ele poderia e não alteraria Sua palavra ou mudaria Sua mente
para reverter as consequências que Ele tinha pronunciado sobre o pecado de
Saul. Saul, como muitas pessoas hoje em dia, deliberadamente desobedeceu a
Palavra de Deus esperando que Deus de alguma forma deixasse de fazer como Ele
disse. Saul teve muito pouca consideração pela Palavra de Deus e não viu quão
sério Deus é em relação à desobediência da Sua Palavra. Ele esperava que Deus
fosse levar Sua própria Palavra levemente revertendo a sentença que Ele tinha
pronunciado contra o pecador. Deus sempre leva Sua Palavra muito
seriamente. Ele não somente espera e requer de nós que Lhe obedeçamos,
como Ele muito certamente irá manter Sua Palavra em relação à punição daqueles
que a desconsideram. Deus, porque Ele é Deus, é imutável, e podemos estar
certos de que Ele irá manter a Sua Palavra. Todas as demais coisas na criação
estão sujeitas à mudança exceto o Criador, pois Ele, como Deus, não mudará:
12 - Mas
tu, SENHOR, permanecerás para sempre, a tua memória de geração em geração. 25 -
Desde a antiguidade fundaste a terra, e os céus são obra das tuas mãos. 26 -
Eles perecerão, mas tu permanecerás; todos eles se envelhecerão como um
vestido; como roupa os mudarás, e ficarão mudados. 27 - Porém tu és o mesmo, e os
teus anos nunca terão fim. 28 - Os filhos dos teus servos continuarão, e a sua
semente ficará firmada perante ti. (Salmo 102:12, 25-28).
6 -
Porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois
consumidos. (Malaquias 3:6).
Em Malaquias, o profeta adverte a
nação de Israel da ira vindoura de Deus. Ele fala da vinda de ambos, João
Batista e de Jesus, o Messias (3:1). O dia da Sua vinda será um dia de ira, e
também será um dia de libertação e salvação. Ninguém pode suportar o dia da Sua
vinda, fora da divina graça (versículo 2), e assim de alguma foram Israel será
purificada, e seus sacrifícios e louvores serão aceitos por Deus (versículos
3-4). Deus irá trazer Seu povo para julgamento (versículo 6). No meio destas
palavras de alerta e conforto, o Senhor fala da Sua imutabilidade como a razão
para Israel não ser totalmente consumida em julgamento divino (versículo 6).
Que ironia quando comparamos este
texto com I Samuel
15:29. A “esperança” de Saul estava na possibilidade de que Deus
pudesse mudar e não levasse adiante as consequências para o seu pecado. A
profecia de Malaquias nos diz exatamente o contrário. Como Saul, Israel pecou,
e o julgamento divino é certo. A imutabilidade de Deus significa que Deus irá
continuar com o julgamento. Também significa que Deus continuará com a Sua
promessa de salvação. Como alguém pode achar conforto e ser assegurado de
salvação enquanto também for assegurado do julgamento divino? A resposta é
simples quando vista da perspectiva da cruz de Cristo. O julgamento certo de
Deus caiu em Seu Filho, Jesus Cristo, e, portanto pela fé Nele, os homens são
salvos dos seus pecados e da ira de Deus. Nossa esperança não é no pensamento
desejando que Deus não continue com a punição do pecado; nossa esperança é na
certeza de que, em Cristo, Deus julgou o pecado na carne de uma vez por todas e
assim podemos ser salvos. A imutabilidade de Deus é uma parte significativa da
nossa esperança, pois Ele que prometeu julgar o pecado é o mesmo Deus que
prometeu nos salvar dos nossos pecados julgando o pecado na pessoa e obra de
Jesus Cristo, Seu Filho.
7 -
Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos
quais imitai, atentando para a sua maneira de viver. 8 - Jesus Cristo é o
mesmo, ontem, e hoje, e eternamente. 9 - Não vos deixeis levar em redor por
doutrinas várias e estranhas, porque bom é que o coração se fortifique com
graça, e não com alimentos que de nada aproveitaram aos que a eles se
entregaram. (Hebreus 13:7-9).
O Livro de Hebreus foi escrito
para os Judeus santos que estavam começando a enfrentar perseguição,
provavelmente dos seus irmãos Judeus não crentes. Eles eram tentados a cair
renunciando sua fé em Cristo e abraçando o Judaísmo novamente. O autor desta
epístola repetidamente demonstrou que a velha aliança Mosaica nunca pretendeu
salvar os homens, porém prepara-los para a nova aliança a qual foi realizada em
Cristo. Esta nova aliança é “melhor”, uma palavra chave em Hebreus,
e não deveria ser abandonada para retornar à velha. Estes santos eram exortados
a persistirem em sua fé, mesmo no meio da perseguição. A exortação de seguir os
passos dos homens fiéis através dos quais eles chegaram à salvação é seguida
imediatamente por esta lembrança da imutabilidade de Jesus Cristo.
8 - Jesus
Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente. (Hebreus 13:8).
Esta declaração é muito
importante, pois é uma alegação de divindade. Somente Deus é imutável; somente
Ele não pode mudar e não muda. Para o escritor nos dizer que Jesus Cristo é o
mesmo ontem, hoje e eternamente é para nos lembrar de que Ele é Deus. Não é de
admirar que o Seu sacrifício é superior a qualquer um e a todos sacrifícios do
Velho Testamento! Também é um incentivo à fé. Quem melhor para confiar nossa
salvação e eterno bem-estar do que Ele que não é somente Deus, porém é O que
não pode mudar e não muda. Nosso destino eterno não poderia estar em melhores
mãos.
17 - Toda
a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em
quem não há mudança nem sombra de variação. (Tiago 1:17).
Como o escritor de Hebreus, Tiago
escreve para aqueles que estavam sofrendo perseguição pela sua fé. Ele instrui
a eles para se regozijarem quando entrarem em provações, sabendo que isto é
divinamente pretendido para aumentar nossa fé pela produção da perseverança
(Tiago 1:2-4; compare Romanos 5:3-5). Se a alguém falta sabedoria para saber
como responder às provações da vida, ela precisa somente pedir a Deus por
sabedoria. Ela não deve duvidar, pois tal pessoa é instável em todos os seus
caminhos (versículos 6-8). Aqueles que perseveram debaixo de provação irão,
quando forem aprovados, receber a coroa da vida (versículo 12)
Enquanto Deus nos testa através
de tribulações e provações, Ele nunca nos tenta para pecar. Tal tentação vem de
outra fonte. O mundo e o demônio certamente procuram nos extraviar, porém
devemos também olhar dentro de nós mesmos para a explicação pelo nosso pecado.
Um homem que é tentado e então peca ele o faz porque ele deu lugar à sua
própria luxuria. Não devemos certamente culpar a Deus (versículos 13-15). Deus
não é certamente a fonte do mal, porém a fonte do bem. Cada coisa boa provém de
Deus como uma dádiva. Somente coisas boas provêm de Deus. Desde que Ele é
imutável, podemos dizer que isto é uma regra, e que não há exceções. O Deus que
é bom, e a fonte de tudo o que é bom, é consistentemente bom para aqueles que
são Seus (versículo 17; veja também Romanos 8:28).
Nestes quatro textos, dois dos
quais são do Velho Testamento e dois do Novo, vemos que a imutabilidade de Deus
é claramente ensinada na Bíblia e que ela é uma verdade intensamente prática.
Antes de considerarmos as implicações práticas da imutabilidade de Deus,
lidemos primeiro brevemente com duas circunstâncias com as quais alguém possa
erradamente concluir que Deus não é imutável. Em várias ocasiões, as Escrituras
falam de Deus se “arrependendo” ou “mudando Sua mente” (veja Gênesis 6:5-6;
Êxodo 32:14; Jonas 3:10; II Samuel 24:16). Tais textos comprometem
nossa confiança na imutabilidade de Deus? Certamente não! Primeiro, devemos
esclarecer o que imutabilidade significa. Imutabilidade se aplica à natureza de
Deus. Ele é sempre Deus, e Ele é sempre infinitamente poderoso. Nunca Deus
falhará em cumprir Seu desejo devido à mudança em Seu poder para cumprir Seus
propósitos. Segundo, Deus é imutável em relação ao Seu caráter ou atributos:
“… Deus é
imutável em Seus atributos. Quaisquer que fossem os atributos de Deus antes da
criação do universo, eles são precisamente os mesmos agora, e irão permanecer
assim para sempre. Necessariamente assim; pois eles são as mesmas perfeições,
as qualidades essenciais do Seu ser. Semper idem (sempre o mesmo) está escrito
através de cada um deles. Seu poder é intenso. Sua sabedoria não reduzida, Sua
santidade imaculada. Os atributos de Deus não podem mudar mais do que a
divindade possa cessar de ser. Sua veracidade é imutável, pois Sua Palavra é
“para sempre, ó SENHOR, a tua palavra permanece no céu” (Salmo 119:89).
Seu amor
é eterno: “com amor eterno te amei,” (Jeremias 31:3) e, “como havia amado os
seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim”. (João 13:1).
Sua
misericórdia não cessa, pois ela é “eterna” (Salmo 100:5).1
Quando Jonas protestou contra os
negócios de Deus com os Ninivitas, ele deixou claro que Deus não estava agindo
inconsistentemente com o Seu caráter, porém ao contrário Ele estava agindo de
maneira previsível. Jonas pensou fugir da presença de Deus numa tentativa fútil
de frustrar Deus de agir consistentemente com o Seu caráter:
1 - MAS
isso desagradou extremamente a Jonas, e ele ficou irado. 2 - E orou ao SENHOR,
e disse: Ah! SENHOR! Não foi esta minha palavra, estando ainda na minha terra?
Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus
compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te
arrependes do mal. (Jonas 4:1-2).
Quando Deus “cedeu em relação
à calamidade a qual Ele declarou que Ele iria trazer sobre” os
Ninivitas, Deus não estava somente agindo consistentemente com Seu caráter; Ele
estava consistentemente agindo com Sua Palavra:
7 - No
momento em que falar contra uma nação, e contra um reino para arrancar, e para
derrubar, e para destruir, 8 - Se a tal nação, porém, contra a qual falar se
converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que pensava
fazer-lhe. (Jeremias 18:7-8).
Esta esperança incentivou o rei
dos Ninivitas se arrepender, juntamente com o restante da cidade (Jonas 3:5-9).
As ações de Deus são previsíveis porque Ele é imutável. Esta foi à esperança do
arrependido rei dos Ninivitas e o receio do profeta Jonas.
Terceiro: os propósitos e as
promessas de Deus são imutáveis (veja Romanos 11:29).2 Deus termina o
que Ele começa. Esta foi a base para o apelo de Moisés a Deus em Êxodo 32
(versículos 11-14). Aqui, as ações de Deus em resposta ao apelo de Moisés não
eram uma contradição à Sua imutabilidade, porém uma confirmação daquela
imutabilidade.
As várias dispensações evidentes
na Bíblia3 não
são contradições à imutabilidade de Deus. A imutabilidade de Deus não O impede
de incorporar diferentes economias no Seu plano geral de redenção. Em Romanos
9-11, o apóstolo Paulo mostra como toda a história é uma parte do plano eterno
de Deus. A falha da nação de Israel e a salvação dos Gentios são parte deste
plano. As Escrituras do Velho Testamento frequentemente falam de tais assuntos,
embora os Judeus não fossem abertos a ouvir ou aprender. Cedo em Seu ministério
terreno, Jesus lembrou Seus irmãos Judeus do propósito de Deus de abençoar os
Gentios assim como os Judeus, consistente com a aliança Abrâmica (Gênesis
12:1-3) e com muitos outros textos (ver Lucas 4:16-27; Romanos 9-11).
Pedro e a
Imutabilidade de Deus
Quando considerei o assunto da
imutabilidade de Deus, fiquei impressionado com a ênfase de Pedro nesta
realidade. A imutabilidade de Deus permeia seus pensamentos e é a base para
muito do que Pedro ensina. Primeiro achamos esta doutrina referida no sermão de
Pedro em Pentecoste registrada em Atos 2. Pedro estava proclamando a
ressurreição de Jesus Cristo da morte, não somente como um fato histórico do
qual os apóstolos eram testemunhas, porém também como cumprimento das
Escrituras (veja Atos 2:22-35). Ele estava argumentando também que a
ressurreição de nosso Senhor era uma necessidade teológica e prática, procedente
da doutrina da imutabilidade de Deus:
22 -
Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por
Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio
de vós, como vós mesmos bem sabeis; 23 - A este que vos foi entregue pelo
determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e
matastes pelas mãos de injustos; 24 - Ao qual Deus ressuscitou, soltas as
ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela; 25 - Porque
dele disse Davi: Sempre via diante de mim o Senhor, Porque está à minha
direita, para que eu não seja comovido; 26 - Por isso se alegrou o meu coração,
e a minha língua exultou; E ainda a minha carne há de repousar em esperança; 27
- Pois não deixarás a minha alma no inferno, Nem permitirás que o teu Santo
veja a corrupção; (Atos 2:22-27).
Pedro mantém que “foi
impossível” para o nosso Senhor não se levantar da morte (versículo
24). Por que isto é assim? Pedro então cita o Salmo 16, versículos 8-11, onde a
profecia declara, “nem permitirás que o teu Santo veja corrupção
(decadência).” Decadência é uma mudança de estado, uma mudança para
baixo. Desde que Jesus Cristo é Deus e Deus não pode decair, Deus não decai.
Não foi impossível para Jesus levantar da morte como alguns podem argumentar.
Ao contrário, foi impossível para Ele não levantar porque Ele é imutável, e
decadência é mudança. Pode ter havido mau cheiro de morte no túmulo de Lázaro
após três dias (ver João 11:39), porém não houve mau cheiro no túmulo onde Jesus
foi colocado. Foi impossível para Ele sofrer decadência. A ressurreição de
nosso Senhor foi uma necessidade teológica.
Na primeira epístola de Pedro, a
imutabilidade de Deus e Suas obras são proeminentes. Em I Pedro 1:3-9, Pedro
fala da nossa salvação a qual é incorruptível ao contrário da que é
corruptível. Ele fala da nossa herança como incorruptível (versículo 4) e
também nossa fé (versículo 7). Nos versículos 18-19, Pedro fala do derramamento
de sangue de nosso Senhor como precioso porque é incorruptível. A expiação pela
qual nossa salvação foi alcançada foi por meio de um sacrifício incorruptível
assim que nossa salvação é da mesma forma incorruptível. Nos versículos 22-25,
Pedro continua falando da Palavra de Deus como incorruptível. É esta Palavra que
serve como a semente incorruptível pela qual fomos gerados. Desde nosso
nascimento é através de uma semente incorruptível, não somente é a Palavra
incorruptível, mas também nossa vida e nosso amor que nascem da Palavra.
Finalmente, em I Pedro 5:4, Pedro fala aos anciãos da sua recompensa
incorruptível, a “a incorruptível coroa de glória”. Nossa
salvação é segura porque é incorruptível. Portanto nossa salvação, como Deus, é
imutável.
A imutabilidade de Deus está
longe de ser somente uma observação teológica ou uma verdade hipotética. É uma
verdade transformadora de vida da qual podemos tirar um número de implicações
para nossas vidas.
(1) A imutabilidade de Deus tem
implicações tremendas em relação a Bíblia, a Palavra de Deus.
J.I. Packer, no seu excelente
livro, Conhecendo Deus, inclui um capítulo na imutabilidade de Deus, onde ele
enfatiza a relevância deste atributo para nossas vidas como Cristãos:
Onde está
o senso de distância e diferença, então, entre crentes no tempo da Bíblia e nós
mesmos? Está excluído. Em que termos? Em termos de que Deus não muda. Comunhão
com Ele, confiar na Sua palavra, viver pela fé, “firmes nas promessas de Deus”,
são essencialmente as mesmas realidades para nós hoje como eram para os crentes
do Velho e Novo Testamento. Este pensamento traz conforto à medida que entramos
nas perplexidades de cada dia; entre todas as mudanças e incertezas da vida
numa era nuclear, Deus e Seu Cristo permanecem o mesmo – poderoso para salvar.
Porém o pensamento traz um desafio também. Se nosso Deus é o mesmo Deus dos
crentes do Novo Testamento, como podemos nos justificar em conteúdo restante
com uma experiência de comunhão com Ele, e um nível de conduta Cristã, que fica
tão abaixo deles? “Se o Deus é o mesmo, esta não é uma questão que qualquer um
de nós pode evitar”.4
A imutabilidade de Deus está
intimamente relacionada com a imutabilidade da Palavra de Deus (Mateus 24:35; I
Pedro 1:2-25), o que significa que a Sua Palavra nunca está desatualizada,
nunca irrelevante para nossas vidas ou épocas.
(2) A imutabilidade de Deus é uma
certeza para os Cristãos
Certeza provê estabilidade e
confiança em tempos de incerteza e circunstâncias que parecem ameaçadoras.
Porque nosso Deus não muda, Suas promessas e Seus propósitos são certos; eles
não podem, e eles não falharão. Temos um sacrifício incorruptível, o sacrifício
de nosso Senhor Jesus Cristo, que consumou redenção eterna para todos aqueles
que o recebem (I Pedro 1:3-9, 17-21; Hebreus 9:12). Temos um “reino que
não pode ser abalado” (Hebreus 12:28). Temos um Deus que lida conosco
consistentemente com Seu caráter e Sua Palavra (veja Tiago 1:12-28). Temos um
Grande Sacerdote que “permanece para sempre e tem um sacerdócio
perpétuo” (Hebreus 7:24). Nossa esperança e confiança não são na “incerteza
dos ricos”, porém ao contrário em “ Deus, que abundantemente
nos dá todas as coisas para delas gozarmos” (I Timóteo 6:17). O
profeta Isaías contrastou a “criação que muda com o Criador que não
muda” como um encorajamento para a certeza e fidelidade, mesmo nos
dias negros da história (Isaías 50:7-51:16).
(3) A imutabilidade de Deus é um
padrão para os Cristãos.
Como “filhos de Deus” devemos
imitar a Deus, refleti-Lo em nossas vidas diárias (veja Mateus 5:43-48).
Enquanto existe muita necessidade de mudança em nossas vidas (sobre a qual
falaremos num momento), há também a necessidade de não mudarmos. Não devemos
permitir que o mundo nos mude conformando-nos com o seu modelo herege (Romanos
12:1-2). Não devemos mudar perdendo o coração e abandonando nossa confissão de
fé (veja Hebreus 6:11-20; 10:19-25, 32-39). Não devemos mudar abandonando
nossos compromissos quando os cumprindo é oneroso para nós (Salmo 15:4).
(4) A imutabilidade de Deus é
também um impressionante alerta que Deus irá cumprir Sua Palavra em relação ao
julgamento pelo pecado.
A imutabilidade de Deus não é
somente uma certeza confortadora em relação às bênçãos que Deus tem prometido,
porém também um impressionante alerta de que Deus irá cumprir Sua Palavra em
relação ao julgamento pelo pecado. Quando Deus falou para Judá em relação ao
julgamento prestes a vir sobre a nação pelos seus pecados, Ele falou de um
julgamento que era certo, que não mudaria porque Ele não mudaria Sua mente:
27 -
Porque assim diz o SENHOR: Toda esta terra será assolada; de todo, porém, não a
consumirei. 28 - Por isto lamentará a terra, e os céus em cima se enegrecerão;
porquanto assim o disse, assim o propus, e não me arrependi nem me desviarei
disso. (Jeremias 4:27-28).
Em Jeremias 18:7-8, Deus prometeu
que Ele iria ceder do desastre que Ele pronunciou contra uma nação ímpia se ela
se arrependesse. Aqui em Jeremias 4, Deus indica que o julgamento do qual Ele
falou é irreversível. Há um tempo para arrependimento, e durante este tempo os
homens podem se arrepender com a certeza de que Deus irá perdoar seus pecados
em lugar do julgamento que Ele ameaçou. Porém o tempo para arrependimento
termina, e então os homens devem enfrentar as consequências dos seus pecados.
Em Jeremias 4, Deus estimula Judá para se arrepender (veja versículo 14), porém
seu pleito será ignorado, e assim o julgamento virá. Quando o tempo para
arrependimento passar, a ira de Deus certamente virá. Deste ponto, Deus não
voltará do julgamento que Ele anunciou através dos Seus profetas. Tal foi o
caso nos dias de Noé. O evangelho foi proclamado por mais de 100 anos, porém
quando Deus fechou a porta da arca, o tempo para arrependimento passou e o
tempo para o julgamento chegou. Deus certamente não “mudará” em
relação ao julgamento, uma vez que o tempo para arrependimento passou. Não erre
olhando para a graça e misericórdia de Deus ao dar um tempo para arrependimento
como uma evidência de apatia divina e certeza de que Deus não julgará os homens
pelos seus pecados. Julgamento é certo e seguro para os pecadores que se
rebelam contra Deus.
Aqui está
o terror para o ímpio. Aqueles que O desafiam, quebram Suas leis, não se
preocupam com Sua glória, porém vivem suas vidas como se Ele não existisse, não
devem supor que, quando finalmente eles gritarem para Ele por misericórdia, Ele
irá alterar Sua vontade, revogar Sua palavra, e rescindir Suas ameaças
horríveis. Não, Ele declarou, ‘Por isso também eu os tratarei com
furor; o meu olho não poupará, nem terei piedade; ainda que me gritem aos
ouvidos com grande voz, contudo não os ouvirei’ (Ezequiel 8:18). Deus
não irá negar a Si mesmo para gratificar suas paixões. Deus é santo, imutável.
Portanto Deus odeia o pecado, eternamente o odeia. Logo a eternidade da punição
de todos os que morrem em seus pecados.
A
imutabilidade divina, como a nuvem que se interpôs entre os Israelitas e o
exército egípcio, tem um lado escuro assim como um claro. Ela assegura a execução
das Suas ameaças, assim como a realização das Suas promessas; e destrói a
esperança que o culpado afetuosamente estima que Ele seja todo indulgente para
Suas frágeis e enganadas criaturas, e que eles serão tratados muito mais
levemente do que as declarações da Sua própria Palavra lidariam como esperado.
Opomo-nos a estas especulações enganadoras e presunçosas com a solene verdade,
que Deus não muda em veracidade e propósito, em fidelidade e justiça (J. Dick,
1850).5
(5) O ímpio frequentemente
emprega mal a imutabilidade de Deus, fazendo-a um pretexto para viver em pecado
sem medo de retribuição.
Homens e mulheres pecadores
frequentemente abusam da doutrina da imutabilidade de Deus. O Deus imutável é
Aquele que é o sustentador de todas as coisas. Naturalmente, todas as coisas
continuam como elas são desde a fundação do mundo (Colossenses 1:16-17; veja
também II Pedro 3:3-4) A constância do mundo em que vivemos é um assunto
de graça comum, e é um que testifica da Sua bondade e graça. Os descrentes
interpretam mal a consistência da ordem da criação, fazendo dela uma “prova” de
que Deus não irá julgar o mundo pelo pecado (II Pedro 3:3-4). Como então
podemos estar certos do Seu julgamento? (1) Por causa da Palavra de Deus que
nos alerta do julgamento, e a Palavra de Deus, como Deus, não muda. (2) Porque
a história da Bíblia está cheia de exemplos da intervenção de Deus na história
humana para julgar o pecado. Este julgamento toma algumas vezes uma forma espetacular,
como a vista no dilúvio (Gênesis 6-7) ou na destruição de Sodoma e Gomorra
(Gênesis 19).
Outras vezes, o julgamento é
adiado de forma que os homens possam se arrepender e serem salvos. E algumas
vezes o julgamento de Deus chega em forma não reconhecida de imediato como
julgamento divino. Este é o caso em Romanos 1:18-32. A ira de Deus está
evidente em permitir aos homens sofrerem a degradação e a corrupção do pecado,
portanto eles são corrompidos tanto na mente como no corpo. Ele julga pecadores
permitindo que eles persistam em seus pecados sem interrupção divina, colhendo
então o redemoinho de consequências pelo pecado. Hoje em nossa cultura muitos
olham a imoralidade, perversão, e coisas deformadas como progresso, como uma
benção. Porém deveríamos vê-la pelo que ela é – julgamento divino – uma pequena
amostra do que está por vir.
(6) O Deus que não muda é o único
meio pelo qual os homens pecadores podem ser mudados de forma a entrarem nas
bênçãos eternas de Deus.
Enquanto Deus não muda, os homens
pecadores devem mudar a fim de entrarem no reino de Deus. Esta “mudança” é de
um que é um vil pecador, merecedor da ira eterna de Deus, para um pecador
perdoado, que agora permanece na justiça de Deus, através da fé em Cristo. É
Deus quem prove os meios pelos quais os pecadores podem ser mudados,
transformados em novas criaturas, perdoados, justificados, tendo uma esperança
imperecível. O que é requerido dos homens é se arrependerem, cessarem de pensar
e agir como faziam anteriormente, reconhecerem seus pecados, e confiarem em
Jesus Cristo.
Este não é um bom trabalho o qual
os homens fazem a fim de ganhar o favor de Deus. Ao contrário, é um bom
trabalho o qual Deus realiza em nossas vidas, o resultado da Sua bondade e
graça. A única mudança que Deus aceita é a mudança que Ele produz em e através
de nós, pelo trabalho de Cristo de do Espírito Santo.
Não há maior receio do que saber
que somos pecadores, e que Deus não somente odeia pecado, porém Ele irá
certamente julgar os pecadores. Não há conforto a ser achado na imutabilidade
de Deus para o pecador. Porém para aqueles que confiaram na provisão de Deus
pelos pecadores, não existe maior conforto do que saber de que Deus que nos
escolheu, que nos chamou e que nos prometeu salvação eterna não muda.
Traduzido por Césio J. de Moura
1 Arthur W. Pink, Gleanings
in the Godhead (Chicago: Moody Press, 1975), pp. 35-36.
2 Alguns dos
propósitos de Deus são temporais e temporários. A aliança Mosaica, por exemplo,
foi uma provisão temporária que de nenhuma forma altera ou coloca de lado Sua
eterna aliança com Abraão (veja Gálatas 3:17).
3 Deveria ser
dito que mesmo os não dispensacionalistas creem em dispensações, que estão em
certas distinções no programa de Deus sobre o curso da história bíblica. A não
concordância surge não sobre o fato de tais diferenças, porém sobre a
interpretação destas diferenças. Como regra, dispensacionalistas tendem a
enfatizar as diferenças enquanto teólogos da aliança enfatizam a unidade de
todo o plano que abrange as várias dispensações.
4 J. I. Packer, Knowing
God (Downers Grove: Inter-Varsity Press, 1973), p. 72.
5 Arthur W. Pink, Gleanings
in the Godhead (Chicago: Moody Press, 1975), p. 37.